
Três julgamentos no Egito me fizeram refletir sobre como a falta de educação transforma pessoas em instrumentos de violência cega
Quando leio sobre o assassinato do presidente egípcio Anwar Sadat, em outubro de 1981, durante um desfile militar no Cairo, uma cena do tribunal sempre me perturba. O juiz perguntou ao atirador: “Por que você o matou?”. Ele respondeu sem hesitar: “Porque ele era seglar”. O magistrado, com serenidade, insistiu: “O que significa ‘seglar’?”. O homem hesitou, engoliu em seco e confessou: “Eu não sei”.
Anos depois, outro caso me marcou. Um jovem esfaqueou o escritor Naguib Mahfouz, vencedor do Prêmio Nobel. No julgamento, o juiz perguntou: “Por que o atacou?”. “Porque ele escreveu um romance contra a religião”. “Você leu o livro?”. Silêncio. “Não”.
Em 1992, o intelectual secular Farag Fouda foi morto a tiros. O assassino, no banco dos réus, disse: “Porque ele não tinha fé”. “Como você sabe?”. “Está nos livros dele”. “Em qual livro?”. Silêncio novamente. “Eu não sei. Nunca li”. E, baixando a cabeça: “Eu não sei ler nem escrever”.
Esses três crimes, esses três julgamentos, revelam para mim um padrão assustador: mata-se por ideias que não se compreendem, condena-se por palavras que nunca se leu, odeia-se conceitos que nem sequer se sabe definir.
Na minha visão, não se trata de convicção genuína. É repetição mecânica de slogans. Não é fé iluminada. É eco de discursos manipuladores. Não é certeza baseada em conhecimento. É obediência cega a quem instrumentaliza a religião para fins políticos.
Eu acredito firmemente que a violência extremista não nasce do excesso de pensamento crítico, mas da sua total ausência. O ódio prolifera exatamente onde o conhecimento não chega. Quando uma sociedade negligencia a educação das camadas mais pobres e vulneráveis, não produz apenas analfabetismo. Produz armas humanas: pessoas que não sabem por que atacam, mas estão prontas a fazê-lo assim que recebem o comando.
Essa lição, que extraio desses episódios trágicos do Egito, tem validade universal – e me faz pensar no Brasil e no Tocantins. Aqui, como em qualquer lugar onde a educação é tratada como privilégio, criam-se condições perfeitas para o fanatismo. O ignorante não é apenas vítima; torna-se, sem perceber, ferramenta de destruição. Ele elimina o líder progressista, o escritor premiado, o pensador laico – figuras que, ironicamente, lutavam por uma sociedade mais justa.
Para mim, o preço invisível da ignorância é sempre pago pelos que ousam pensar diferente. Sadat buscava a paz. Mahfouz explorava a alma humana. Fouda defendia a separação entre religião e Estado. Todos caíram nas mãos de quem nunca entendeu o que combatia.
Não basta condenar o terrorismo ou o extremismo. Eu defendo que é preciso atacar a raiz: o analfabetismo funcional, a falta de acesso à educação crítica e a manipulação de massas desinformadas. Só uma sociedade que invista massivamente em escolas, livros e pensamento independente conseguirá desarmar essas bombas-relógio humanas.
Enquanto a indiferença com a educação dos mais pobres persistir, continuaremos produzindo assassinos que matam por palavras que não compreendem e morrem por causas que desconhecem. Para mim, a ignorância não é apenas uma falha moral – é uma ameaça letal à civilização.
Que esses julgamentos distantes sirvam de alerta para todos nós: investir em educação não é gasto. É a mais urgente medida de segurança pública que uma nação pode adotar.









