Foto: Divulgação

A desinformação corre mais rápido que as frentes frias, e o melhor remédio contra ela é o bom senso. Antes de encaminhar mensagens de alerta nos seus grupos, verifique a informação em fontes oficiais de notícias ou canais científicos

Basta o inverno dar as caras no Hemisfério Sul para que um velho conhecido das agências de checagem de fatos volte a assombrar os telefones celulares dos brasileiros. Uma mensagem com tom alarmista e recheada de símbolos gráficos tem circulado no aplicativo de mensagens alertando para a chegada iminente do “Fenômeno Afélio”. O texto promete um frio “como nunca visto antes”, quedas drásticas de imunidade e, de quebra, uma receita milagrosa: dormir de meias para evitar infartos.

Se você recebeu esse texto em algum grupo de família, pode acalmar o coração (e tirar as meias, se estiver com calor). Trata-se de uma notícia falsa completa, que mistura conceitos astronômicos reais com dados matemáticos inventados e boatos médicos sem qualquer base científica.

O que é o Afélio? (E por que ele não vai te congelar)

O afélio é um evento astronômico real e perfeitamente normal: ele representa o ponto da órbita em que a Terra fica mais distante do Sol durante o seu movimento de translação. No entanto, a corrente que circula na rede peca gravemente na matemática e na física. A mensagem afirma que a distância normal da Terra ao Sol é de 90 milhões de quilômetros e que o afélio nos afastaria para 152 milhões de quilômetros (um distanciamento 66% maior).

A realidade científica é bem diferente. A distância média da Terra ao Sol é de aproximadamente 149,6 milhões de quilômetros. No ponto mais próximo (chamado de Periélio), ficamos a cerca de 147 milhões de quilômetros; no mais distante (o Afélio), a cerca de 152 milhões de quilômetros. Ou seja, a diferença real é de apenas 3% — uma variação insignificante para alterar o clima do planeta de forma drástica.

Além disso, o Afélio ocorre anualmente no início de julho. Se a distância do Sol determinasse o frio extremo, o planeta inteiro congelaria ao mesmo tempo. Contudo, enquanto o Brasil vive o inverno, o Hemisfério Norte (países como Estados Unidos, Japão e nações da Europa) enfrenta o pico do verão. Vale lembrar que as estações do ano ocorrem devido à inclinação de 23,5º do eixo da Terra em relação ao seu plano orbital, e não pela distância do Sol.

A avaliação dos absurdos da mensagem

Para além da astronomia de internet, o texto aproveita para espalhar desinformação sobre saúde. Abaixo, separamos o que é mito e o que é verdade no conteúdo compartilhado:

  • Dormir com meias evita infartos? MITO. Esta é uma das afirmações mais perigosas do texto. Usar meias na cama pode ajudar a aquecer os pés e melhorar a qualidade do sono, mas não tem qualquer poder de prevenir ataques cardíacos. O infarto está ligado a fatores como hipertensão, colesterol alto, tabagismo e sedentarismo.

  • O ar ficará mais frio devido ao fenômeno? MITO. O frio que sentimos nesta época do ano é o inverno natural do Hemisfério Sul, intensificado por massas de ar polar comuns para a estação, sem qualquer relação com o Afélio.

  • Consumir frutas cítricas e cuidar da imunidade? VERDADE. Eis o único ponto sensato do texto. Durante os meses mais frios, a baixa umidade e a maior aglomeração em locais fechados facilitam a propagação de vírus respiratórios, como o da gripe. Manter uma alimentação rica em vitaminas e agasalhar idosos e crianças são recomendações médicas reais para o inverno.

Anatomia de uma notícia falsa

Especialistas alertam que a mensagem do “Afélio” reúne todas as características clássicas de uma boataria de internet:

  • Tom alarmista: Usa termos como “MUITO FRIO”, “CUIDADOS ESPECIAIS” e “URGENTE” em letras maiúsculas.

  • Apelo emocional: Coloca em risco a saúde de grupos vulneráveis, como crianças e idosos.

  • Pedido de compartilhamento: Termina com o famoso “Por favor, compartilhe esta informação”.

  • Erros de grafia e pontuação exagerada: Excesso de símbolos visuais e uso incorreto de pontuações para chamar a atenção.

O veredito: O inverno exige cuidados redobrados com a saúde, mas o “Fenômeno Afélio” congelante é uma farsa. Antes de encaminhar mensagens de alerta nos seus grupos, verifique a informação em fontes oficiais de notícias ou canais científicos. A desinformação corre mais rápido que as frentes frias, e o melhor remédio contra ela sempre será o bom senso.

Perques Leonel